A Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) projeta safra recorde de 325,6 milhões de toneladas para o ciclo 2025/2026, alta de aproximadamente 8,3% em relação às 300,7 milhões de toneladas colhidas na safra anterior. O volume inédito pressiona diretamente a cadeia de transporte rodoviário — responsável por mais de 65% do escoamento de grãos no Brasil — e sinaliza valorização do frete agrícola no segundo semestre de 2026.
CONAB projeta safra recorde de 325 milhões de toneladas: o que dizem os números
O 8º Levantamento de Safra da CONAB, divulgado em maio de 2026, consolida a estimativa de 325,6 Mt de grãos. O número supera o recorde anterior (322,8 Mt em 2022/2023) e confirma a tendência de expansão de área plantada e produtividade. A área total cultivada alcança 81,4 milhões de hectares, crescimento de 2,1% sobre o ciclo 2024/2025.
Soja, milho safrinha e algodão: culturas que puxam o recorde
Três culturas respondem pela maior parte do volume:
- Soja: estimativa de 169,2 Mt (+6,8% vs. safra anterior), com cotação da saca de 60 kg sustentada acima de R$ 130 no indicador CEPEA/Esalq.
- Milho (1ª e 2ª safra): projeção combinada de 105,3 Mt. A safrinha concentra 78% desse total, com colheita prevista entre junho e agosto — exatamente na janela de pico logístico.
- Algodão: 3,9 Mt em pluma, alta de 11%, com demanda logística concentrada em Mato Grosso e Bahia.
Por que essa safra afeta diretamente o caminhoneiro
No Brasil, o modal rodoviário movimenta cerca de dois terços da produção agrícola. Uma safra de 325,6 Mt significa aproximadamente 212 milhões de toneladas transportadas por caminhão — o equivalente a mais de 5,3 milhões de viagens de carretas graneleiras de 40 toneladas. Para o caminhoneiro autônomo e para frotas dedicadas ao agro, o segundo semestre de 2026 representa a maior janela de faturamento do ano.
Calendário do pico logístico: quando a demanda por frete explode
O calendário de escoamento segue o ritmo das colheitas:
- Fevereiro a abril: pico da soja — já parcialmente absorvido em 2026.
- Junho a setembro: milho safrinha — período de maior pressão sobre frete e rodovias. Filas em armazéns e terminais portuários podem ultrapassar 24 horas de espera.
- Agosto a novembro: algodão + resíduos de milho e soja tardia — demanda sustentada, sobretudo para portos do Arco Norte.
Quem já rodou corredor de safra conhece a rotina: fila de 15 km na porta do armazém, poeira de estrada de chão desgastando pneu e filtro, e espera de dois a três dias para carregar no porto. Em ano de safra recorde, esse cenário se intensifica.
Rotas e corredores críticos no segundo semestre
BR-163, BR-364 e o corredor Centro-Norte: gargalos previstos
Os principais corredores de escoamento para a safra 2025/2026 concentram gargalos conhecidos:
- BR-163 (MT → PA): liga Mato Grosso ao porto de Miritituba/Barcarena. Trechos sem pavimentação entre Guarantã do Norte e Novo Progresso ficam intransitáveis em períodos de chuva tardia. A Pesquisa CNT de Rodovias classifica 38% do trecho como regular ou ruim.
- BR-364 (MT → RO): corredor alternativo para Porto Velho e hidrovia do Madeira. Capacidade limitada em pontes e travessias urbanas.
- Corredor Centro-Norte (TO/MA): ferrovia Norte-Sul + rodovias de acesso aos terminais de São Luís. Crescimento da capacidade portuária no Itaqui não acompanha o volume projetado.
Frete agrícola: faixas de preço esperadas e tabela ANTT
A tabela de frete mínimo da ANTT, atualizada semestralmente conforme a Resolução nº 6.078/2024, estabelece pisos por eixo e distância. Para granéis sólidos em carreta de 6 eixos, os valores de referência em maio de 2026 partem de:
| Distância (km) | Piso mínimo (R$/t) | Faixa de mercado estimada (R$/t) |
|---|---|---|
| até 200 | R$ 58,40 | R$ 62–75 |
| 201–500 | R$ 98,70 | R$ 110–135 |
| 501–1.000 | R$ 168,50 | R$ 180–220 |
| acima de 1.000 | R$ 245,30 | R$ 260–310 |
No pico da safrinha (julho-agosto), o frete spot historicamente opera 15% a 25% acima do piso ANTT nos corredores MT→Santos e MT→Paranaguá. O Índice de Custo de Transporte da NTC&Logística (ICTF) acumula alta de 6,2% em 12 meses, pressionado por diesel S10 e pneus.
Como o caminhoneiro autônomo pode se preparar agora
Manutenção preventiva, documentação e posicionamento estratégico
Para capturar as melhores faixas de frete no pico logístico, o autônomo precisa agir antes de julho:
- Revisão mecânica completa: motor, freios, suspensão e sistema elétrico. Quebra em corredor de safra significa dias parado e perda de carga.
- Pneus: priorizar borracha nova ou recapagem de qualidade. Estradas de chão no MT e TO destroem pneus desgastados em uma viagem.
- Documentação: RNTRC atualizado, CNH categoria E em dia, seguro de carga vigente.
- Posicionamento geográfico: deslocar-se para regiões produtoras (Sorriso, Lucas do Rio Verde, Rio Verde-GO) antes do pico reduz tempo morto e aumenta chance de frete de retorno.
Riscos: clima, infraestrutura e capacidade portuária
A safra recorde traz riscos proporcionais. O principal é climático: chuvas prolongadas até junho podem atrasar a colheita do milho safrinha e comprimir a janela de escoamento em menos semanas, gerando congestionamento extremo. A capacidade de armazenagem estática do Brasil (aproximadamente 200 Mt, segundo a CONAB) é inferior à safra projetada, o que força escoamento imediato e sobrecarrega rodovias.
Nos portos, Santos e Paranaguá operam próximo do limite. O Arco Norte (Barcarena, Itaqui, São Luís) ganha participação, mas a infraestrutura de acesso rodoviário ainda é deficitária. A combinação de volume recorde, armazenagem insuficiente e gargalos portuários pode gerar filas de caminhões superiores a 48 horas nos terminais durante o pico de agosto.
Perguntas frequentes sobre a safra 2025/2026 e o transporte rodoviário
Qual o volume total da safra 2025/2026 projetado pela CONAB?
A CONAB estima 325,6 milhões de toneladas de grãos, recorde histórico e alta de 8,3% sobre a safra 2024/2025.
Quando o frete agrícola atinge o pico em 2026?
O período de maior demanda é entre julho e setembro, coincidindo com a colheita e escoamento do milho safrinha.
O piso de frete da ANTT se aplica ao transporte de grãos?
Sim. A Resolução ANTT nº 6.078/2024 estabelece pisos mínimos por tipo de carga, número de eixos e distância. O descumprimento sujeita o contratante a multa.
Quais rodovias terão mais congestionamento?
BR-163 (MT-PA), BR-364 (MT-RO) e os acessos rodoviários aos terminais do Arco Norte (TO/MA) são os trechos mais críticos.
O caminhoneiro autônomo consegue negociar acima do piso?
No pico da safrinha, o frete spot opera historicamente 15% a 25% acima do piso ANTT nos principais corredores de soja e milho.
Fonte primária: CONAB — 8º Levantamento de Safra, Grãos, ciclo 2025/2026 (boletim disponível no portal da CONAB). Indicadores de preço: CEPEA/Esalq-USP. Piso de frete: ANTT — Resolução nº 6.078/2024. Custos logísticos: NTC&Logística (ICTF).
Foto: Sander Yigin via Unsplash
Fonte: CONAB — 8º Levantamento de Safra, Grãos, ciclo 2025/2026